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quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Certa manhã acordei de sonhos intranquilos

Ao acordar
com sirenes de Kafka ao meu lado
pude notar que não era tão estranho
mesmo que não fosse nada além de lençóis
eu nasci ali, naquela cama
nasci assim, vivo assim
e provavelmente, não mude até morrer
conhaque, campari, cerveja
tomo porres, gosto da ressaca
engulo porra, odeio o gosto
sou inerte
indiferente e apático
nada me surpreende
não levo a sério
trabalho, faculdade, ideologia
gosto de fingir que sei das coisas
na verdade não sei de nada
mas, basta uma garrafa de vinho
daí eu falo, com propriedade
Hemingway, Dostoievsk, Nietzsche, Ginsberg, Bukowski
e todo mundo acredita
e eu sorrio, dono da verdade
por fim com minhas botas furadas
e minha camisa desbotada
fingindo ser beatnik
chego em casa, fumo um cigarro
me deito e o sono, de imediato, me derruba
noutro dia acordo
com a mesma dor de cabeça
e nenhum mar à vista
o almirante do concreto
o naufrago da cidade
a história se repete
Assim é, sempre foi
minha vida
tão chata e vazia
como a de todo o resto da humanidade.

(a única diferença é que eu me conformo)


Mais um ano que começa - 2011 - grande bosta, só régua pra medir tempo e contar horas. A gente só envelhece porque os homens querem assim. Nascer, crescer, reproduzir, morrer. hahahaha. Pra mim só falta o último estágio. Bem, de qualquer forma espero que as coisas mudem sempre pra melhor, isso é a evolução, ou Darwin não sabia de nada. Quero mais tempo com minha família e amigos, quero um milhão de porres, um penico de vômito, novo. Quero que morra bastante gente neste ano, o mundo tá cheio. E desejo a todos um grande ano, se não for tão grande, pelo menos maior que o outro, nada de paz, amor e saúde. Somente o suficiente.
Se os Maias e a mente fantasiosa dos seres humanos, estiverem certo, este é um dos nossos últimos anos. Eu quero mais é que essa porra se exploda e sobre apenas a minha casa e o bar do japonês, na esquina, pra eu ter onde beber.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Dilemas e paradoxos

Foto por Nátalin Guvêa
No que não existe
é o que eu creio
eu sou feio
portanto me acho bonito
ou sou bonito
daí me acho feio
ou me acho bonito?
me sinto velho
então eu penso
ou eu finjo?
falo
não entendo
nem explico
fosse eu, mudo
pra preservar os dentes
de leão
que mia
esperando a leoa
voltar da caça
insensato
estúpido
decadente, mas com estilo
estripo
minha hipocrisia
chamo-a de filha
e a levo pra passear
sou o maior filósofo moderno
do meu sofá
portanto
penso, logo
percebo
que não existo.


PRO TEXTO DE HOJE, RECOMENDO DUAS TRILHAS. FANTÁSTICAS DE DOIS GRANDES NOMES DA MÚSICA BRASILEIRA, ELAS COMPLETAM ESTE TEXTO, EM DOIS DIFERENTES ASPECTOS.:




terça-feira, 23 de novembro de 2010

Poema sem nome nº2

Estranha Criatura por Solange Venturi
Papai tem cancro duro
Mamãe tem gonorréia
então, cresci
achando que
mudar o mundo
era trepar
com camisinha.










Ps: A foto foi garimpada no blogue da artista plástica Solange Venturi, uma das mentes mais criativas da atualidade. Sua obra causa uma estranheza, uma perturbação visual, passear por todas as fotos do blogue é um desafio e, no final, deixa dentro do peito uma ligeira angústia. A admiração pela brutalidade e a genialidade da artista se mistura a uma inquietação constante. Um passeio que aconselho. Um dos melhores trabalhos que eu vi nos últimos tempos, se não o melhor.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Poema sem nome n°1

FOTO POR NÁTALIN GUVEA
Sufoco do luto
um maluco
com coceira no cu
corre nu
pela praça
as bolas balançam
em cadência de sino
badala
na cabala
tira o cabaço da cadela
singela
mete no útero
bolinhas de silicone
depois lambe
e vomita 
idiossincrasia
do estranhamento conservador
surge o trivial
moralidade vulgar
das reflexões rasas
de peixinho de aquário
nasce a nova geração
meio homem
meio cão
a coceira no cu
virou câncer.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Pelas horas da madrugada


Levanto só,
corro pelas horas da madrugada
um deslize sorrateiro
até o banheiro
Lá, deixo, meu sangue e tripas
um estupro
Enquanto aguardo ansioso
o falir de meus rins
sou eu, o faquir de minha dor
Olho para meu vômito
com meu ar bucólico
e
admiro aquele símbolo da minha imperfeição
Pelas horas da madrugada
faço fogo e saio à caça
sendo assim,
sou eu
o fantasma que ainda me assombra
porém, já não assusta mais.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

O Despertar

Hoje eu acordei,
todo cagado.
cagando pro mundo
cagando pra você
e, também, todo cagado

Não ligo pro lençol sujo de merda,
nem pra esse mundo de merda,
nem pra sua cara de merda.

Hoje,
eu acordei todo cagado
e, provavelmente, amanhã
eu acorde também.
(se não fosse todo esse álcool)

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Na Taverna

...sento no balcão

- uma dose de porra, por favor!

Viro tudo num gole só e peço outra.
abro o jornal, e começo a sangrar pelo ânus.
"maníaco da placenta é preso hoje"
dizia a manchete, enquanto outras cabeças rolavam pela página

- uma dupla agora, da mais doce que você tiver.

Guardo o jornal dentro do casaco
fico observando as putas, com as rugas cheias de sebo, na mesa ao lado
Passo os olhos pelo buraco na parede
lá fora o dia cinza com dois sóis que queimam, mas já não iluminam
e de pensar... que no final ainda tenho que dormir para manter-me lúcido

- Deixa a garrafa, hoje vou tomar um porre de porra! Quero dormir bêbado e sujo.


v.m.paes

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

RESSACA


v.m.paes

A bebida libera a libido, mas que porcaria é essa de libido? É o que te faz ser irracional, agir sem pensar muito, em muitas vezes nem pensar, é o que te faz ser diferente, chato, cômico. A libido é assim arrogante, prepotente, ignora todos os valores éticos e morais, ela é um misto de insanidade com sagacidade, quanto se está sobre domínio dela é como se tudo ao seu redor deixa-se de existir, pessoas, sentimentos (principalmente alheios), universo. Enfim, a libido é a dor de cabeça melancólica, arrependida, e incompreensível do dia seguinte, é a vontade morrer, ou de beber novamente.