terça-feira, 21 de dezembro de 2010

O CU DO CRIOULINHO


O crioulinho era sujo
tinha terra nos dentes
cabelo seboso
quase não abria os olhos
catava latinha
pra fumar crack
e reciclar a mente
pedia trocados
dormia em praça pública
de olhos abertos
      ***
dois guardas passam
grudam o crioulinho pelo pescoço
rasgam a roupa
o crioulinho desnudo
e condescendente
por falta de opção
parecia nem estar ali
lavam o cu do crioulinho
com creolina
comem o cu do crioulinho
sem parcimônia
sem cuspe
a seco
a cada estocada
escorria um líquido espesso e escuro
merda e sangue
o ato termina
os guardas beijam a boca do menino
prometem voltar amanhã
saem sorrindo
o crioulinho agradece
sobe as calças e deita dormir
amanhã acorda cedo pra catar latinha.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Dilemas e paradoxos

Foto por Nátalin Guvêa
No que não existe
é o que eu creio
eu sou feio
portanto me acho bonito
ou sou bonito
daí me acho feio
ou me acho bonito?
me sinto velho
então eu penso
ou eu finjo?
falo
não entendo
nem explico
fosse eu, mudo
pra preservar os dentes
de leão
que mia
esperando a leoa
voltar da caça
insensato
estúpido
decadente, mas com estilo
estripo
minha hipocrisia
chamo-a de filha
e a levo pra passear
sou o maior filósofo moderno
do meu sofá
portanto
penso, logo
percebo
que não existo.


PRO TEXTO DE HOJE, RECOMENDO DUAS TRILHAS. FANTÁSTICAS DE DOIS GRANDES NOMES DA MÚSICA BRASILEIRA, ELAS COMPLETAM ESTE TEXTO, EM DOIS DIFERENTES ASPECTOS.:




terça-feira, 23 de novembro de 2010

Poema sem nome nº2

Estranha Criatura por Solange Venturi
Papai tem cancro duro
Mamãe tem gonorréia
então, cresci
achando que
mudar o mundo
era trepar
com camisinha.










Ps: A foto foi garimpada no blogue da artista plástica Solange Venturi, uma das mentes mais criativas da atualidade. Sua obra causa uma estranheza, uma perturbação visual, passear por todas as fotos do blogue é um desafio e, no final, deixa dentro do peito uma ligeira angústia. A admiração pela brutalidade e a genialidade da artista se mistura a uma inquietação constante. Um passeio que aconselho. Um dos melhores trabalhos que eu vi nos últimos tempos, se não o melhor.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Poema sem nome n°1

FOTO POR NÁTALIN GUVEA
Sufoco do luto
um maluco
com coceira no cu
corre nu
pela praça
as bolas balançam
em cadência de sino
badala
na cabala
tira o cabaço da cadela
singela
mete no útero
bolinhas de silicone
depois lambe
e vomita 
idiossincrasia
do estranhamento conservador
surge o trivial
moralidade vulgar
das reflexões rasas
de peixinho de aquário
nasce a nova geração
meio homem
meio cão
a coceira no cu
virou câncer.